
Gabriel encontra Ester mergulhada em rabiscos, cadernos e lápis de cor.
— O que você tá fazendo, irmã?
— Desenhando um plano. Pra quando meu tio entrar na terceira idade e a gente cuidar dele.
— Em qual idade ele já tá?
— 2.99, eu acho. Você sabe que ele tá sempre reclamando da dor nas costas.
— E do joelho que range.
— E quando ele levanta rápido e fica tonto.
— Tem também a pressão dele que vai láaaaa no alto quando o Miguel rabisca a parede.
— E, quando o Miguel colocou a Suzie na máquina de lavar, a pressão dele caiu.
— Lembra quando ele esqueceu o celular no shopping, as chaves de casa na loja de celular e você no chaveiro?
— Todo mês ele acha que é aniversário de um de nós três, ano passado tivemos sete comemorações.
— Eu acho que ele não enxerga mais de longe.
— De perto também não.
— E tudo a gente tem que falar gritando ou repetir três vezes.
— E o nariz dele para de funcionar quanto o tempo vira.
— Ele explode se comer camarão, leite, maracujá ou abacaxi.
— Ultimamente ele só tá podendo beber água, eu acho.
— Mas nem isso ele bebe, porque…
— Verdade, as pedrinhas nos rins.
As crianças ficam pensativas, refletindo sobre o fato científico de que um homem de 28 anos tem, na verdade, 82 em idade de gay.
— Ester, acho que, se continuar assim, não vamos precisar do seu plano.
— Quer me ajudar a escolher um caixão então?

