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Diego pesquisa na internet como adestrar gatos e descobre que é possível se o gato for colaborativo. Suzie não parece nem um pouco disposta. O truque é atrair o gato com um petisco, dar a ordem e elogiar o bichano quando ele cumprir o combinado.

— Senta, Suzie!

A gata permanece imóvel.

— É pra sentar, mulher. Você sabe como.

Suzie ignora o comando.

— Assim, ó. Viu?

Diego senta no chão em frente à gata, que permanece de pé.

— E como eu sentei, eu vou comer um petisco.

Diego se arrepende de colocar petisco com gosto de peixe morto na boca, mas finge que gostou pra dar inveja na gata.

— Ficou com vontade, né? Então senta.

Suzie sai andando sem nem olhar para trás.

— Ok, vamos tentar dar a patinha…

Depois de inúmeras tentativas, Diego desiste, pois a gata é surda ou muito burra. Suzie se dá por satisfeita após adestrar um gay. Sem perceber, Diego senta, pega um brinquedo, deita e dá a patinha quando a gata mia.

***

— Tio, sabia que hoje a professora me ensinou a letra C?
— C de cavalo?
— Não, tio, C de chocolate.
— Cavalo também começa com C, Miguel.
— Eu não aprendi cavalo ainda, então pode me dar um chocolate mesmo.
— Mas eu não ia te dar nada.
— …
— …
— Me ensina um palavrão com a letra C?


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Diego odeia futebol, mas as crianças insistem em fazer festa para o primeiro jogo do Brasil na Copa do Mundo. Vuvuzelas, bandeirinhas, camisas da seleção, o chão da sala rabiscado de giz em verde e amarelo. Depois do resultado, Miguel fica decepcionado com a morosidade do jogo e decide inventar um novo esporte para o país ser campeão.

— O nome vai ser… Super Futebol Turbo Para Todos! Pode jogar homem, mulher, tudo misturado. Pode gay também. E algumas crianças. Não, muitas crianças!
— E como que joga?
— No futebol, vence quem faz mais gol, né, mas o Brasil tá meio ruim disso, então… no Super Futebol Turbo Para Todos vence quem fizer menos gols. Melhor! Vence quem erra mais o gol. Na trave, vale 5 gols. Se o goleiro pegar, vale 10. Se chutar pra fora, vale 32 gols.
— ...
— Outra coisa: Eu acho que uma bola só é pouca coisa pra tanta gente. No Super Futebol Turbo Para Todos, vão ser sete bolas. E um quadrado! E uma daquelas bolas grandonas que cabe uma pessoa dentro.
— Vai ter árbitro?
— Dentro da bolona. E, toda vez que ele apitar, o jogo para e todo mundo tem que fazer uma coreografia do Tiktok. Quem errar leva cartão amarelo. Quem levar cartão amarelo leva dois cartões vermelhos.
— E quem levar cartão vermelho?
— Leva três cartões azuis.
— Pra que servem esses cartões todos, Miguel?
— Pra nada, só pra colecionar. Alguns são brilhantes.
— E se tiver falta?
— Como assim?
— Quando um jogador empurra o outro no chão, por exemplo.
— Eu não falei que o campo inteiro é um pula-pula gigante? Se a pessoa cair no chão, ela quica de volta e fica de pé.
— Acho que alguns jogadores brasileiros gostam mais de ficar caídos…
— Por isso que tem que ter mais criança. A gente não para de correr.



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As crianças encontram um baralho de tarô e decidem ler escondidas o futuro do tio. Ester embaralha, Miguel pergunta com quem Diego vai se casar e Gabriel puxa a primeira carta: A Imperatriz.

— Não acho que uma imperatriz se casaria com meu tio…
— Será que o baralho sabe o que é um gay?
— Vamos tentar de novo.

A Sacerdotisa.

— Esse baralho deve estar com defeito.
— Só deve funcionar pra quem é preto e branco.
— O meu tio é preto.
— Não, ele é colorido.
— Que coisa boa vai ter no futuro do meu tio?

A Morte.

— Meu Deus.
— Como o meu tio vai morrer?
— Gabriel!!!

O Enforcado.

— Ai, não.
— Calma, gente, as cartas já falaram abobrinha antes. Tarô, você sabe mesmo quem é o meu tio?

O Louco.

— Ih, ferrou. É ele mesmo.


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— Olha, tio, achei uma espada mágica! — diz Miguel, segurando um cabo de espada imaginário.
— Não tô vendo nada aí — responde Diego, sem prestar muita atenção enquanto mexe no celular.
— É porque ela é invisível.
— Hum. E como você achou então, se não dá pra ver?
— Eu tropecei nela, ali na cozinha.
— …
— Qual é a sua arma mágica?
— Eu preciso de uma?
— Não vamos acabar com os monstros se ficar tudo nas minhas costas!
— Tá bom, Miguel. Eu tenho um… uma… lança mágica, pronto.
— Cadê?
— Aqui, do meu lado. É invisível também.
— Bonita! E resistente! Vai servir. Como você achou?
— Foi fácil, os inteligentes e corajosos conseguem ver.
— Incrível! E como você achou?


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Diego aciona o Ministério Público para proibir Chapell Roan de voltar ao Brasil e sai de lá com uma carteira de trabalho. Os Dioguinhos brincam de acampamento na sala, mas as coisas saem um pouco de controle quando Miguel acende a fogueira para assar marshmallows. Ester decide se rebelar e provar que não é uma menina boazinha, então bagunça a casa inteira trocando os móveis de lugar, acidentalmente melhorando todo o Feng Shui do apartamento. Diego explica que as crianças são um presente de Deus na vida dele, e que ele também é um presente de Deus na vida das crianças. Os três se perguntam se ainda dá tempo de devolver o tio e trocar por um cachorro caramelo. Antes de dormir, Gabriel diz sorrindo para Diego: “Tio, lembra daquela vez que tinha um espírito obsessor na cabeceira da sua cama, que tinha cinco olhos e duas bocas? Ah, é, você tava dormindo. A boca da esquerda contava piadas muito engraçadas”. Diego não prega os olhos por cinco noites seguidas.


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Diego e Miguel estão deitados no sofá, quando o menino começa a divagar do nada:

— Deus faz tudo perfeito, né, tio? O céu azulzinho, os passarinhos cantando, o ventinho gostoso que entra pela janela…
— Sim…
— A sombra das árvores, mas também o calorzinho bom do sol…
— Hum.
— O pão quentinho que a gente compra na padaria.
— Isso aí meio que é o padeir—
— O barulhinho de quando a gente coloca na Netflix pra ver Naruto…
— Oi?
— A sensação maravilhosa da bala Fini grudando no céu na boca...
— Não acho q—
— Aquela borboleta tão bonitinha desenhada com giz de cera na parede atrás do sofá…
Que??? Miguel, você rabiscou a parede?
— O seu coração tão grande e cheio de amor pelos seus sobrinhos, principalmente o do meio, que por acaso sou eu…


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Gabriel encontra Ester mergulhada em rabiscos, cadernos e lápis de cor.

— O que você tá fazendo, irmã?
— Desenhando um plano. Pra quando meu tio entrar na terceira idade e a gente cuidar dele.
— Em qual idade ele já tá?
— 2.99, eu acho. Você sabe que ele tá sempre reclamando da dor nas costas.
— E do joelho que range.
— E quando ele levanta rápido e fica tonto.
— Tem também a pressão dele que vai láaaaa no alto quando o Miguel rabisca a parede.
— E, quando o Miguel colocou a Suzie na máquina de lavar, a pressão dele caiu.
— Lembra quando ele esqueceu o celular no shopping, as chaves de casa na loja de celular e você no chaveiro?
— Todo mês ele acha que é aniversário de um de nós três, ano passado tivemos sete comemorações.
— Eu acho que ele não enxerga mais de longe.
— De perto também não.
— E tudo a gente tem que falar gritando ou repetir três vezes.
— E o nariz dele para de funcionar quanto o tempo vira.
— Ele explode se comer camarão, leite, maracujá ou abacaxi.
— Ultimamente ele só tá podendo beber água, eu acho.
— Mas nem isso ele bebe, porque…
— Verdade, as pedrinhas nos rins.

As crianças ficam pensativas, refletindo sobre o fato científico de que um homem de 28 anos tem, na verdade, 82 em idade de gay.

— Ester, acho que, se continuar assim, não vamos precisar do seu plano.
— Quer me ajudar a escolher um caixão então?


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Miguel aparece com um pacote de absorvente no supermercado.

— Tio, isso aqui é sorvete de quê?
— De onde você tirou que tem sorvete aí dentro?
— Tá escrito aqui: ab-sor-ve-te.
Absorvente.
— Se não é sorvete, é o que então?
— É coisa de menina, Miguel.
— Você sempre diz que não existe isso de coisa de menino e coisa de menina.

Diego fica sem palavras por cinco segundos.

— Ok, alguns homens podem usar também, mas não é o seu caso.
— Mas serve pra que?
— Bom… Tem gente que sangra todo mês, daí elas precisam disso pra… absorver o sangue.

Miguel fica sem palavras por dez segundos.

— Tio, por que eu não ganhei um absorvente quando caí de bicicleta e me ralei todo?
— Ai, Miguel, tá bom, da próxima vez eu te dou um.

Miguel comemora a promessa até ver uma mulher colocando alguns pacotes de absorvente no carrinho de compras. Então se aproxima e pergunta:

— Ninguém te ensinou a andar de bicicleta quando era criança?

A mulher fica sem palavras por quinze segundos.


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De: administracao@[censurado]
Para: diegojamaisdiogo@[censurado]
Assunto: RE: IDEIAS DE FANTASIAS DE CARNAVAL INOFENSIVAS

Prezado Senhor Diego,

Agradecemos o envio da lista com as suas “ideias de fantasias minimalistas e socialmente adequadas” para o nosso Bailinho de Carnaval, e também a sua gentileza em solicitar nossa aprovação para evitar problemas com os demais condôminos, embora não possamos afirmar que todos eles sejam “um bando de gente amargurada e falsa”.

Concordamos que a lista é um tanto surpreendente. O senhor realmente tem uma criatividade pulsante e um desejo latente de exibir partes do corpo nunca antes destacadas em fantasias de carnaval. Aqui na administração estamos todos perplexos com seu talento.

Mas tivemos que barrar todos os itens. 

Fantasias que possam ser interpretadas como ofensivas (“Jesus de salto alto”), constrangedoras (“A galinha que chora para colocar ovos graúdos”), de cunho sexual (“Elphaba safadinha”), discriminatórias (“O raio que acertou os minions na caminhada do Nikolas Ferreira”) ou que gerem desconforto coletivo (“Bia do Brás”) não são permitidas. 

Atenciosamente, a administração.

PS: Sim, seus sobrinhos podem ir fantasiados de K-Pop Demon Hunters, desde que deixem em casa qualquer tipo de objeto que possa ser usado como arma. Principalmente a raquete da maiorzinha.



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As crianças imploram para brincar de Big Brother Brasil. A dinâmica da casa de vidro não dá muito certo quando todos ficam presos no box do banheiro, e Diego solta um pum acidentalmente. Depois de uma discussão acalorada com a Alexa, Miguel é indicado ao paredão pela inteligência artificial, mas volta vitorioso depois de eliminar o robô aspirador do jogo. O amigo imaginário de Gabriel vence a prova do anjo e imuniza o menino. Diego é colocado na xepa sozinho, mas depois é puxado para o grupo VIP quando as crianças percebem que só ele sabe cozinhar. Uma barata é eliminada com rejeição depois de encostar na comida da festa. Suzie é desclassificada por agressão depois de arrancar a cabeça de uma boneca, que no momento era a líder da semana. Diego é eliminado no top 4 após uma dinâmica surpresa que Miguel inventou na hora: para ser finalista, os participantes precisavam saber o nome de todos os personagens da Patrulha Canina. Ester vence a brincadeira depois de chegar à final com Miguel e Gabriel, recebendo o título de Grande Irmã por diversos motivos, mas principalmente por ser mais alta que os meninos.


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Diego decide entrar na trend do Instagram:

Como vou ser triste, se em 2025 eu...

…não gritei “EU NÃO PEDI PRA SER TIO” na frente das crianças nenhuma vez, só no off.

…me afastei de relações tóxicas (ou elas que se afastaram de mim, não ficou muito claro).

…não fui preso. Só se contar ter sido algemado na cama de um policial.

…levei Gabriel no funeral de um desconhecido, e ele reagiu como se eu o tivesse levado à Disney.

…peguei um cartão no Bradesco, um empréstimo no Nubank e um gerente no Itaú.

…ensinei Ester a andar de bicicleta, mesmo achando que ela já sabia e fingiu só pra me agradar.

…li 24 livros, todos eles pra crianças de até 10 anos, com menos de 50 páginas e muitas figuras, o que foi bastante desafiador.

…aprendi a estabelecer meus limites. Se eu falei que não cabe, é porque não cabe. Se eu falei que cabe, acredite.

…me organizei para não ficar sem dinheiro e mantive minhas contas equilibradas no último semestre (conheci um agiota gatinho em agosto)

…deixei Miguel colocar cocô de gato na porta de um vizinho racista.

…me permiti descansar sem culpa. E dar ghosting sem culpa. E falar mal dos outros sem culpa. E pegar homem casado sem culpa. É lindo o caminho da terapia e da evolução espiritual.




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Resoluções de ano novo do Diego ao longo dos anos:

Plano de mudança de vida para 2024

Começar do zero e ficar fluente em inglês, espanhol e francês

Escrever um livro com a história da minha vida e impactar milhões de pessoas com a minha sabedoria

Fazer um mochilão pela Europa regado a comida, luxo e homens bonitos

Malhar todos os dias e ficar ainda mais gostoso (não só no verão, mas em todas as estações do ano)

Aprender a fazer investimentos e comprar um carro só com os rendimentos


Metas VIÁVEIS para arrasar em 2025 depois do fracasso em 2024

Me matricular num cursinho de inglês e parar de me enganar de que sou uma pessoa que aprende um novo idioma vendo Friends

Ler um livro por mês até eu aprender a escrever

Comprar uma mochila

Tirar fotos com cinco looks diferentes no espelho da academia para ter o que postar nos stories nos dias em que eu não for

Ganhar na loteria ou conhecer um cara rico e velho, o que acontecer primeiro


Como sobreviver em 2026

Começar do zero e ficar fluente em inglês, espanhol e francês
Me matricular num cursinho de inglês e parar de me enganar de que sou uma pessoa que aprende um novo idioma vendo Friends
Pegar pelo menos um gringo

Escrever um livro com a história da minha vida e impactar milhões de pessoas com a minha sabedoria
Ler um livro por mês até eu aprender a escrever
Descobrir se sou mesmo alfabetizado ou se meus pais compraram meu diploma do ensino fundamental

Fazer um mochilão pela Europa regado a comida, luxo e homens bonitos
Comprar uma mochila
Conhecer Uberlândia-MG

Malhar todos os dias e ficar ainda mais gostoso (não só no verão, mas em todas as estações do ano)
Tirar fotos com cinco looks diferentes no espelho da academia para ter o que postar nos stories nos dias em que eu não for
Fingir que estou na vibe “corpos reais” enquanto espero a ciência avançar e desenvolver as pílulas de shape instantâneo

Aprender a fazer investimentos e comprar um carro só com os rendimentos
Ganhar na loteria ou conhecer um cara rico e velho, o que acontecer primeiro
Tentar não quebrar o porquinho das crianças em março

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Miguel toma banho e brinca na banheira enquanto Diego toma conta. 

— Agora lava o cabelo. 
— Hoje não dá mais, tio, amanhã a gente tenta de novo. 
— Como que não dá, Miguel? O shampoo tá aí do seu lado. 
— Aqui diz “Para cabelos secos”, mas agora eu já molhei. 
— Não é assim que funciona. 
— Diga isso para a ciência. 

 *** 

Gabriel quer saber o que vai ganhar de presente de Natal. 

— É um lobisomem? 
— Não. 
— Uma guilhotina? 
— Misericórdia, Gabriel. Não. 
— Um cemitério de brinquedo? 
— Você sabia que o Natal não é sobre ganhar presentes? 
— Mas é o aniversário de Jesus! 
— Então ele é quem tem que ganhar presente, não a gente. 

 O menino fica pensativo por dez segundos: 

 — Tio, mas não é verdade que Jesus está dentro de nós?


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Fonte: Freepik

Não é de hoje que atitudes racistas pipocam aqui e ali pela comunidade literária. Autores que nunca escrevem personagens negros em seus livros, leitores que não leem livros escritos por pessoas pretas, editoras que selecionam majoritariamente influenciadores brancos em suas parcerias e publis, e por aí vai. A lista é imensa, e o tamanho dela deveria por si só ser revoltante. 

Mas nós, pessoas brancas em geral, mesmo nós que gostamos de nos enxergar como aliados antirracistas, aparentemente convivemos muito bem com o racismo. As situações acontecem e ficamos em silêncio, continuamos a viver normalmente como se nada tivesse acontecido, como se fosse normal uma marca convidar apenas influenciadores brancos para um evento ou uma editora anunciar os lançamentos do ano com nenhum livro publicado por pessoa negra na lista.

Não ser racista é diferente de ser antirracista. Não ser racista é o mínimo que uma pessoa decente deve ser, mas não é o suficiente para que o racismo presente em todos os espaços enfraqueça. Assim como todas as áreas da sociedade, a comunidade literária também cresceu em cima do racismo e, por isso, situações em que pessoas negras são excluídas são vistas como comuns. Gosto de acreditar que vamos reagir em casos de racismo explícito e violento (será?), mas ser antirracista é combater o racismo todos os dias, em todas as suas formas.

Antirracismo é ação.

E por conta disso listei abaixo ações antirracistas que todos nós podemos ter para fazer da comunidade literária um lugar melhor, mais diverso e mais criativo. Separei em categorias que dependem do seu papel no mercado, mas certo de que qualquer pessoa pode contribuir com as ações.

(A lista obviamente sempre pode aumentar. Se você tiver ideias de ações que podem entrar na lista, me avise!)


PARA TODOS

1. Ler mais livros escritos por pessoas negras

2. Indicar livros escritos por pessoas negras para amigos e conhecidos

3. Divulgar livros escritos por pessoas negras nas redes sociais

4. Cobrar escritores brancos que só escrevem livros com pessoas brancas

5. Seguir/engajar escritores negros nas redes sociais

6. Apoiar financeiramente escritores negros a publicarem seus livros

7. Apoiar financeiramente influenciadores negros a criarem conteúdo

8. Cobrar influenciadores brancos que só leem/divulgam livros escritos por pessoas brancas

9. Seguir/engajar influenciadores negros nas redes sociais

10. Cobrar editoras que só fazem publi com influenciadores brancos

11. Cobrar editoras que anunciam lançamentos onde a maioria esmagadora dos livros são escritos por pessoas brancas

12. Cobrar editoras que selecionam para parceria majoritariamente influenciadores brancos

13. Cobrar agências literárias cujo elenco de autores é majoritariamente branco

14. Cobrar marcas em geral que só fazem publi com influenciadores brancos

15. Cobrar eventos literários que só chamam escritores/influenciadores brancos


PARA ESCRITORES

16. Escrever livros com personagens negros

17. Contratar mais profissionais do livro negros para trabalharem no seu livro

18. Contratar mais influenciadores negros para divulgar seu livro

19. Indicar escritores negros para seus editores

20. Indicar escritores negros para sua agência literária

21. Ao ser convidado para participar de uma coletânea/antologia/projeto, questionar o fato de só escritores brancos estarem envolvidos

22. Ao ser convidado para um evento literário, questionar o fato de só existirem convidados brancos


PARA INFLUENCIADORES

23. Engajar seus seguidores para lerem mais livros escritos por pessoas negras

24. Indicar autores negros independentes para agências literárias e editoras

25. Ao ser convidado para participar de uma publi/projeto de editora ou marcas, questionar o fato de só pessoas brancas estarem envolvidas

26. Ao ser convidado para um evento literário, questionar o fato de só existirem convidados brancos

27. Fazer collabs com escritores/influenciadores negros


PARA EDITORAS

28. Publicar mais livros escritos por pessoas negras

29. Promover ações para alcançar mais leitores negros

30. Promover ações para dar visibilidade a autores negros

31. Contratar mais influenciadores negros para publis/projetos

32. Convidar/enviar mais escritores negros para eventos literários

33. Priorizar escritores, influenciadores e agências literárias com postura antirracista

34. Cobrar a curadoria de eventos literários no qual a editora terá estande de convidar autores/influenciadores negros

35. Questionar quando o livro de um autor da casa só tem pessoas brancas (quando isso não faz sentido no contexto)

36. Contratar mais pessoas negras para trabalhar em seus departamentos

37. Selecionar mais influenciadores negros como parceiros


PARA AGÊNCIAS LITERÁRIAS

38. Agenciar mais autores negros

39. Questionar quando o livro dos agenciados só tem pessoas brancas (quando isso não faz sentido no contexto)

40. Contratar mais pessoas negras para trabalhar em seus departamentos


PARA MARCAS EM GERAL

41. Contratar mais influenciadores negros para publis/projetos

42. Contratar mais pessoas negras para trabalhar em seus departamentos


Por enquanto, é isso. Entendo que algumas pessoas terão mais dificuldade do que outras para se desdobrar em tantas ações, mas, um conselho, comece devagar. Escolha pelo menos uma ou duas ações para começar e vá acrescentando novas conforme o passar do tempo. Antirracismo também é prática.

Vamos lá?


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Uma subcelebridade que virou coach no Instagram conta a história sobre Sílvio Santos ter ficado milionário começando apenas com um único lápis, então Diego desafia as crianças a se tornarem milionárias também, entregando uma canetinha colorida a cada uma.

Gabriel rabisca a parede com a canetinha preta.

Miguel rabisca Gabriel e depois o próprio rosto com a canetinha vermelha.

Ester faz uma sucessão de trocas. A canetinha rosa pelas canetinhas dos irmãos. Duas canetinhas por uma lata de refrigerante. O refrigerante por um skate sem rodas. O skate por uma churrasqueira portátil sem grelha. A churrasqueira por um ventilador de alta potência que só gira para a esquerda. O ventilador por um quadro de arte abstrata que todo mundo acha que é um pêssego, mas é a bunda de um homem gay. O quadro por uma geladeira frost free. A geladeira por um jantar num restaurante japonês famoso para sete pessoas. O jantar por uma viagem com tudo pago para Fernando de Noronha. A viagem por um investimento financeiro de alto risco que acaba falindo e rende apenas o valor de uma canetinha.

Diego pendura na sala um quadro de arte abstrata que parece a bunda de um homem gay, mas deve ser um pêssego, enquanto leva as crianças para beberem água gelada no vizinho.



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Gabriel acorda Diego à meia-noite para avisar que há um monstro no guarda-roupa.

— Tá repreendido, garoto. Isso de monstro não existe, mas dorme aqui comigo então.
— Mas ele quer falar com você.
— Comigo?
— Ele pediu pra falar com quem manda na casa, mas a Suzie tá dormindo.
— Eu também estava dormindo.
— Mas você não vai arranhar minha cara por te acordar no meio da noite, vai?
— Estou considerando agora que você me dedurou para um monstro.
— Pode ir lá falar com ele, tio?
— O que um monstro pode querer comigo, Gabriel?
— Te prender no guarda-roupa pra sempre, te devorar ou ser seu melhor amigo.
— Eu posso escolher?
— Não.
— Aff. Vou lá só pra te provar que isso é tudo coisa da sua imaginação.
— Obrigado, tio! Vou ficar aqui de longe torcendo por você.
— Medroso.
— Não volta correndo pra cá se tudo der errado, tá? Eu vou trancar a porta. Mas vai dar tudo certo.



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O dicionário dos sentimentos, segundo Os Dioguinhos:

AMOR

Miguel:  “Quando meu tio fala que vai sumir se a gente continuar fazendo bagunça, mas todo dia ele tá aqui”

Gabriel: “É uma florzinha pequenininha dentro do coração, que cresce quando a gente ganha chocolate e diminui quando mandam a gente comer brócolis”


BONDADE

Ester: “Eu não sou boazinha com todo mundo! Vou te provar que posso ser malvada. Mas hoje não. Depois você me lembra”

Gabriel: “Ester”

Miguel: “Ester”


CURIOSIDADE

Gabriel: “Matou um gato uma vez e ninguém nunca mais esqueceu disso”


DECEPÇÃO

Miguel: “Quando eu pergunto pro meu tio se tem sobremesa e a cara dele nem treme pra responder que tem maçã”

Ester: “Meu tio foi me ensinar o valor do dinheiro, mas acho que ele não sabe matemática”


ESPERANÇA

Miguel: “Aquela criança que fica pedindo dinheiro na Globo”

Gabriel: “A última que morre, mas vamos ter paciência”




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As crianças assistem em silêncio ao último filme de princesa da Disney, mas isso só dura até Diego comentar que elas vão tomar banho assim que o filme acabar. Miguel pede para pausar.
 — Tio, como faz pra ser princesa?
 — O seu pai precisa ser rei.
 — E como faz pro meu pai virar rei?
 — Sei lá, Miguel. Alguém tem que inventar uma monarquia e escolher seu pai como rei, eu acho.
 — A gente pode inventar uma monarquia agora?
 — Não pode ser depois do filme?
 — Mas eu quero ser princesa agora. Depois do filme eu já vou querer ser outra coisa.
Diego é obrigado a escrever um documento que institui a monarquia naquele cômodo, dando a Miguel o poder dos decretos reais.
 — Agora vamos ver o filme, Miguel — diz Diego.
 — Mas o Gabriel vai contar até dez.
 — Por quê?
 — Eu decretei.
Gabriel começa a contar nos dedos:
 — Um, dois, três, dois, barata, morcego, um, girafa, quatro, rato…
 — Quando ele vai chegar no dez?
 — Vamos ter que esperar, tio.
Gabriel consegue dizer o nome de todos os animais que conhece — e alguns que acabou de inventar — antes de encerrar a contagem.

***

Depois da última cena do filme, Miguel pede para pausar novamente.
 — Ester, o que está escrito ali?
 — Créditos finais.
 — E depois?
 — O nome dos atores e de todo mundo que participou do filme.
 — Decreto que você leia pra mim.
 — Qual?
 — Todos.
O filme dura sete horas e trinta e dois minutos. Diego cai no sono no sofá.

* Nenhum sabonete foi ferido durante as gravações desta cena de Os Dioguinhos.



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Diego decide parar de beber por conta das últimas notícias, mas desiste três dias depois, porque prefere beber metanol a viver sóbrio. Ester baixa escondida o tigrinho no celular de Diego, achando que é uma versão de My Little Pony com tigres, e fica indignada quando perde 50 reais. Miguel pergunta se homem engravida, e Diego explica que alguns homens trans podem engravidar. Desde então, Miguel passa a perguntar para todo homem gordo se, por acaso, ele é um homem trans esperando bebê. As crianças decidem taxar os adultos super-ricos, mas liberam Diego do pagamento em jujubas, porque ele só tem 78 centavos na conta. Gabriel organiza uma rifa com o nome de todos os suspeitos do assassinato de Odete Roitman.


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Diego aplica botox pela primeira vez e recebe as crianças no apartamento.

— Tio, tem alguma coisa diferente no seu rosto — diz Miguel.
— Verdade! — concorda Gabriel.
— Ah, perceberam, é? [vaidoso]
— Eu percebi, mas não sei o que é — comenta Ester.
— Adivinhem. [se achando o gostoso]
— O seu nariz tá mais torto? — pergunta Gabriel.
— Não é o nariz, sempre foi assim — responde Ester.
— De onde vocês tiraram que meu nariz é torto?
— É a cara de cansado — afirma Miguel. — Tio, você tá doente?
— Já sei! São os olhos esbugalhados!
— O cabelo ressecado!
— Os dentes amarelados!
— As orelhas de abano!
— O testão de amolar faca!

Diego marca mais cinco procedimentos estéticos assim que devolve as crianças.



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